Ações tokenizadas: um guia para você entender mais sobre essa tendência

Quem gosta do mundo da renda variável sempre menciona a possibilidade de comprar pedaços de empresas do mercado local ou global. São as ações, que conferem ao detentor o direito pelo recebimento dos lucros (dividendos) e até participação em votações para decisões estratégicas.

E claro que esse enorme mercado de compra e venda de ações não poderia ficar de fora da revolução trazida pelas criptomoedas. Chegou a hora de você conhecer as ações tokenizadas, uma possibilidade de investir em empresas cotadas em bolsa por meio da compra de tokens.

Ficou confuso? Então continue lendo esse artigo para entender tudo sobre esse assunto e não ficar de fora dessa tendência que tem tudo para só aumentar!

Mas calma: o que é tokenização?

Para entender de verdade o que significa tokenização de ações, é preciso dar um passo atrás e compreender o conceito de tokenização. Apesar do nome um pouco complicado, tokenizar é o ato de transformar ativos reais ou financeiros em um ativo totalmente digital.

Quem faz esse processo é uma empresa especializada (que muitos chamam de tokenizadora), que fica responsável por estruturar toda a operação de tokenização, desde o entendimento do ativo que está sendo repartido em pequenas frações até a oferta dessas porções criptografadas únicas aos potenciais interessados.

Quais ativos podem ser tokenizados: 4 exemplos!

Apesar de muita gente se lembrar da tokenização de ações, há ainda diversas outras possibilidades, com muitos casos de uso nos ativos reais. Vamos a 4 exemplos práticos de ativos que já foram (e continuam sendo) tokenizados.

Metais Preciosos

Ouro, prata e muitos outros metais são considerados valiosíssimos considerando as cotações recentes. Muitos deles sequer foram escavados, mas já é possível identificar o tamanho da reserva e o seu potencial valor.

Vejamos o caso do ouro. Ao invés de ficar ‘manuseando’ o bem físico, é possível tokenizar uma determinada reserva desse metal e permitir que pessoas interessadas adquiram frações desse total por meio de um ativo totalmente digital.

O ouro é apenas um exemplo, sendo possível criar esse mesmo processo para a prata, diamante e até reservas inteiras de petróleo.

Moedas Fiduciárias

Cada país possui sua moeda local, pela qual são transacionados produtos e serviços todos os dias. O poder de emissão pertence aos governos e a estabilidade da moeda é determinante para que a sociedade confie na sua utilização como reserva de valor e meio de troca.

Essa é a base conceitual que está por trás das stablecoins, ou criptomoedas estáveis. Elas são lastreadas em moedas fiduciárias, como é o caso de TrueUSD, DAI e muitas outras disponíveis no mercado cripto. No fim das contas, tornar as cédulas e moedas locais (ativo físico) em um token comercializável é um tipo de tokenização.

Imóveis

O mercado de incorporação e construção em geral é um segmento que tem uma linguagem própria: comprar ‘na planta’, distrato e sublocação são apenas alguns dos termos que são frequentemente utilizados por quem atua nesse setor.

Além dos conceitos, quem tem um imóvel em seu nome ou ainda possui um contrato de locação sabe que a burocracia muitas vezes atrapalha o dia a dia. O mercado imobiliário tem passado por um processo de modernização bem interessante nos últimos anos, inclusive incluindo o processo de tokenização no coração do negócio.

Por meio dele, é possível identificar o dono do imóvel, qual valor pago e por quantas ‘mãos’ esse bem já passou desde o início. Tudo isso é gravado e fica disponível para consulta por meio da blockchain, barateando os processos e dando mais segurança às transações.

Valores mobiliários diversos

Uma verdadeira revolução foi observada quando a população pôde investir na empresa que construía as linhas férreas na Inglaterra, em meados do século XVIII. De lá para cá, o mercado financeiro, especialmente o mercado de capitais se desenvolveu de forma exponencial, digitalizando etapas e dando muito mais segurança às negociações de ações em todo o mundo.

Se algumas décadas atrás existia de fato um papel que era o comprovante que alguém possuía uma determinada quantidade de ações de uma empresa, hoje quase tudo já fica disponível para consulta na tela do computador. E mais do que isso: estamos vendo um processo de integração entre as criptomoedas e o sistema financeiro tradicional.

Ao invés de comprar uma ação por meio de uma bolsa de valores, portanto, já é possível comprar um token que simula o comportamento do ativo principal.

Tokenização de Ações: um pezinho na renda variável

As bolsas de valores sempre atraíram a atenção de quem tem um dinheiro para investir. Por meio das bolsas, é possível fazer investimentos em empresas através da compra de ações, aproveitando-se de um crescimento acelerado ou ainda da distribuição de dividendos.

E por que não integrar a (r)evolução das criptomoedas ao mundo das bolsas de valores? A ideia é bem simples e muito semelhante ao caso das stablecoins. O token de ação é uma representação digital do comportamento de uma ação cotada em bolsa. Ele possui todos os atributos de outros tokens (como altcoins), mas seu valor oscila conforme o preço das ações varia na bolsa, entre compras e vendas do mercado.

Como funciona a tokenização de ações?

A dinâmica para criar um token de ação é a seguinte: primeiro, é preciso escolher qual ação que o token vai ser lastreada. Pode ser a Apple, Microsoft ou qualquer outra. Em seguida, a empresa responsável por criar o token desenvolve toda a parte tecnológica, através de contratos inteligentes e escolhe em qual blockchain sua solução vai rodar (a grande maioria roda em ERC-20, da Ethereum).

Por fim, existe também um processo operacional de custódia das ações que dão lastro ao token. Afinal, cada vez que um token é criado, uma ação deve ser guardada como reserva para garantir que exista de fato essa relação, que, vale destacar, não precisa ser de 1 para 1. Na verdade, na grande maioria das vezes o token pode ser uma fração de uma ação, e o valor exato é uma decisão do criador do token e é transparente para os participantes.

Daí em diante o dia a dia é bem simples: a oscilação do token é equivalente a variação de preço da ação da empresa. A ação subiu 10% com melhora das expectativas para a economia? O token lastreado nela sobe junto. Caiu 15% por causa de resultados ruins e maior concorrência? O token afunda também.

Um último ponto que é super importante de esclarecer. Não existe necessariamente o aspecto da convertibilidade automática do token em ação. Isso depende de como estão as regras do token, sendo que, muitas vezes, se observa que essa conversão é feita em stablecoins, como Tether ou outra.

As vantagens da tokenização

A tokenização de ações (ou de qualquer outro ativo) tem avançado bastante nos últimos meses e tem sido alavancada por algumas vantagens em relação ao mercado tradicional. As 3 principais estão destacadas abaixo.

Valores de entrada menor

Como o token pode representar uma fração do valor de uma ação, isso pode gerar inclusão de pessoas que anteriormente não tinham recursos suficientes para entrar. E isso é mais comum do que se imagina: há uma série de ações americanas cotadas em bolsa cujo valor unitário pode passar dos US$2.000.

A ação do Alphabet (que controla o Google), por exemplo, está cotada acima dos U$2.500. Portanto, um token que representa 1/100 do valor da ação exige um preço de entrada de US$25, bem mais convidativo.

Horários de negociação

As bolsas funcionam em horário comercial, em dias úteis. Já o mercado de criptoativos está no regime 24/7, ou seja 24 horas por dia e 7 dias por semana. Dessa forma, pelo menos em tese, esses tokens de ações podem ser transacionados a qualquer momento, inclusive de final de semana e de madrugada, horário que a bolsa está fechada.

Contudo, na prática, algumas corretoras restringem o horário para transacionar os tokens de ação no mesmo período que as bolsas estão abertas. É preciso ficar de olho na regra de cada corretora quanto a esses ativos, combinado?

Segurança da blockchain e wallet

O token de ações segue o mesmo caminho de outros tokens que utilizam a infraestrutura da blockchain para registrar informações. Isso significa que se uma pessoa vender um token de ação da Apple, por exemplo, para outra pessoa interessada, esse registro vai ficar na blockchain para todo o sempre, com todas as propriedades e benefícios trazidos por esse enorme livro-razão digital.

Além disso, a custódia desse token é feita pela própria pessoa, por meio de uma carteira digital própria para criptomoeda, seja ela cold, warm ou hot wallet.

Um futuro bastante promissor para a tokenização

São mais de 4.000 empresas listadas nas bolsas dos Estados Unidos. Pouco mais de 10 foram tokenizadas, o que mostra um enorme potencial de expansão desse tipo de produto. No Brasil, em que temos menos de 500 empresas listadas, nenhuma ainda possui tokens atrelados ao seu desempenho.

Um dos motivos é que o próprio mercado está aprendendo sobre as oportunidades e desafios a respeito dos tokens de ações. O outro motivo está numa incerteza regulatória acerca do produto em si: como o token reflete o comportamento de um ativo mobiliário, ele deveria ser regulado como tal. E isso tem gerado dúvidas para os emissores, que preferem esperar para ver como se dará essa discussão entre regulador (CVM, SEC e outras) e os participantes do mercado.

De qualquer forma, apesar dessas incertezas, é super importante conhecer o processo de tokenização e o seu mais conhecido ‘filho’, as ações tokenizadas. Por meio destes tokens, é possível investir em ativos de renda variável sem perder todas as vantagens do mundo das criptomoedas.

Arthur Solow é economista pela Escola de Economia de São Paulo da FGV e pós-graduado em Business Analytics e Big Data também pela FGV. Possui experiência em análise e monitoramento de dados, comunicação política, criação de conteúdo e educação financeira. É confundador do Terraço Econômico. É apaixonado pelo universo cripto e tem convicção que estamos vivendo apenas o início da enorme revolução da nossa forma de lidar com o dinheiro.